Cooperativismo: berço de nascimento do PHL
Elysio Mira Soares de Oliveira
elysio@elysio.com.br

Há anos, sendo mais exato, deste 1982, venho me envolvendo com redes cooperativas, desenvolvimento e capacitação de pessoal no uso de novas tecnologias para a organização e controle de acervos bibliográficos. 

Em 1986, fui contratado pela Bireme/OPS/OMS para coordenar um projeto de implantação de uma rede cooperativa para descentralizar o processo de coleta e processamento de informações em ciência da saúde. Esta etapa inicial do projeto consistia basicamente na difusão de uma metodologia comum de processamento da informação e da difusão da idéia de trabalho cooperativo. 

Durante o período de 10 anos, mais de 500 bibliotecários foram capacitados em todo o continente e mais de 300 bibliotecas se integraram neste espírito de cooperação. Deste projeto nasceram dentro da Bireme, sob direção do Dr. Fernando Rodrigues Alonso e Dr. Abel Laerte Packer, algunas inovações tecnológicas que marcaram a história bibliográfica mundial, entre elas, a idéia inovadora da distribuição de bases de dados bibliográficas em CD(s). Esta iniciativa, até então, era tida como inviável. Em 1987, um dos diretores da US National Library of Medicine chegou a afirmar publicamente, em um evento comemorativo na Bireme, que a idéia de duplicar e distribuir bases de dados bibliográficas na mídia pretendida pela Bireme (CD) era absurda. Mas graças a únião de forças e do espírito descentralizador de compartilhar e distribuir conhecimento, a Bireme em 1988, com apoio finaneiro da UN/PAHO, iniciou a distribuição de equipamentos leitores, juntamente com a primeira edição da base de dados LILACS (Literatura Latinoamericana e do Caribe de Informações em Ciências da Saúde) em CD-ROM. 

Por mais de uma década, esta mídia desempenhou um papel fundamental no processo de difusão bibliográfica. Desta lição, ficou comprovado que sinergia do trabalho cooperativo associado à comunhão de idéias pode gerar produtos a custos, esforços e prazos extremamente reduzidos. Imbuído neste mesmo princípio que o finladês Linus Toward criou o Linux e passou a distribuir cópias gratuitas do código fonte a procura de voluntários para o seu aprimoramento. Hoje, a manutenção do Linux está fundamentada em um processo sinergético de contribuições espontâneas desvinculadas de qualquer tipo de orçamento. Quem ganha com isso? A resposta mais acertada seria "ninguém" e "todo mundo". 

O linux é um "motivo" que vende revistas, jornais, cds, computadores, componentes e espaços na mídia que atrai espectadores. Hoje, a quantidade de empresas e indivíduos que faturam com o "Linux" é incalculável. Muitas editoras, gravadoras, produtoras de mídias e prestadores de serviços, tem movimentado milhões, divulgando, distribuindo e capacitando pessoas a utilizar este produto. Indiretamente, ganham também aqueles que ao absorverem este conhecimento e contribuírem "gratuitamente" para o seu desenvolvimento, passam a incorporar um conhecimento que tem sido utilizado como "bem de troca" de grande valor econômico.

Há algum tempo, um aluno mexicano me enviou uma frase que dizia representar bem o trabalho que desenvolvo.

"Não sobrevivem os mais fortes nem os mais inteligentes, sobrevivem aqueles com maior capacidade de se adaptarem às mudanças".
(Charles Darwin)

Outra lição, que contrapõe à paradigmas formados, é que a informação é um produto cujo valor contraria todas as leis de mercado aplicadas aos outros produtos. A informação é um produto que mesmo após ser "vendido", continua na posse do vendedor. É um produto que contraria outra regra de mercado que diz "quanto mais abundante, menor o valor". 

Existe um paradigma que associa à informação um "valor" como um "bem de troca". O valor da informação não pode ser medido somente sob este prisma, a informação gera conhecimento e novas tecnologias, que podem se converter em "bens ou serviços", mas gera também alterações de comportamento que afetam a vida dos indivíduos e cujo valor não pode ser medido. 

Durante muito tempo a informação e o conhecimento esteve sempre associado à matéria que servia de hospedeiro para a sua difusão. Como um espírito preso em um corpo, a informação era comercializada indiretamente através de seu corpo. Hoje vivenciamos uma nova situação e muitos ainda não perceberam que a informação se desvinculou da matéria, e com os bytes, se libertou e passou a se manifestar na sua forma "espiritual".