Palestra de abertura do 3º Encontro Regional do Spisis
Senac, São Paulo, 6 de dezembro de 1999

Autor: Elysio Mira Soares de Oliveira
Publicado no: www.elysio.com.br
03/01/2000


Antes de tudo, gostaria de agradecer à Cândida e a Maria Delcina  pelo convite para esta comemoração dos 10 anos do SP-ISIS e também, neste aniversário, parabenizar o Grupo pelo empenho no cumprimento de seus objetivos. Farei algumas considerações,  procurando nortear as tendências no uso  do CDS/ISIS, e alertar a todos seus usuários das mudanças que passam a ser requeridas nas rotinas dos serviços de informação, para estarmos preparados ao ingresso neste novo milênio.

Com os avanços na área de comunicação neste final de século, principalmente com o advento da Internet, o período de tempo entre a geração da informação e sua recepção, foi abreviado de forma espantosa.

Há uma grande corrida, por parte daqueles que sempre estiveram envolvidos na organização e transmissão do conhecimento, buscando acompanhar estas mudanças, integrando-se dentro deste novo contexto.

Veículos e suportes, que ao longo do tempo poucas mudanças haviam sofrido, neste final de século, tem sofrido grandes modificações, face às novas facilidades dos meios de comunicação.

Através do correio eletrônico e das listas de discussões, hoje é possível obtermos informação de experiências e conhecimentos gerados há segundos antes.

O conhecimento, cujo veículo de transporte, esteve durante séculos fundamentado na matéria (átomos) passou a ser também armazenado e transmitido em bytes. Criando uma outra dimensão, que ultrapassa os limites de espaço e tempo.

Esta nova dimensão, tão sonhada por alguns é ainda imperceptível às vistas de outros.

Allen Kent, no documento intitulado "Textbook on mechanichal information retrieval" cita que já em 1955, nos dias que precederam o lançamento do Sputnik, Cherenin, da URSS, descrevia um processo semelhante ao que encontramos hoje.

Dizia ele: "Não está muito longe o tempo em se dará uma nova revolução no campo da armazenagem e disseminação de dados, similar àquela que ocorreu quando da invenção da imprensa. É difícil prever de que maneira ocorrerá; todavia, dando largas à imaginação, é possível visualizar como se processará o serviço de informação no futuro.

Em vez de grandes tiragens, produzem-se apenas quantidades reduzidas de cópias, as quais são transmitidas para um ou vários centros de informação (servidores). Tais centros transmitem continuamente, através de múltiplas ondas, todos os dados de que dispõem, numa espantosa freqüência sucessiva de quadros alcançando por exemplo, o total de um milhão por segundo. Com uma tal velocidade de transmissão, todos os dados acumulados pela humanidade podem ser divulgados, através de múltiplas ondas, dentro de um intervalo de tempo relativamente curto, algo assim como poucos minutos.

Qualquer quadro pode ser recebido em qualquer lugar, utilizando-se uma tela de televisão especial (monitor), equipada com um dispositivo selecionador (teclado, mouse). Todas as instruções, sistemas de classificação e índices, como também os requisitos, em código, exigidos para a utilização de um tal aparelho televisor, serão também transmitidos, (manuais) eliminando-se assim, a necessidade de se usar quaisquer espécie de informações impressas.

É difícil superestimar a flexibilidade e eficiência de tal método imaginário empregado na armazenagem e disseminação de dados. Sem dúvida, esse método ou um outro análogo custará bem menos do que os métodos existentes hoje em dia. Isto não significa porém, como aliás aconteceu por ocasião do aparecimento da imprensa, quando o documento manuscrito continuou a ser usado, que a aparição de um serviço de informações semelhantes ao que descrevemos, provocará a eliminação dos sistemas atualmente empregados para a conservação e disseminação de dados."

Embora difícil mensurar, podemos afirmar que hoje, o volume de conhecimento armazenado e transmitido em bytes é maior que a soma de todo o conhecimento armazenado em átomos.

Como foi dito por Cherenin a 45 anos atrás, também não podemos afirmar que a informação em "bytes" substituirá a informação em "átomos". A informação veiculada em átomos sempre irá existir. A mídia impressa,  é o veículo de excelência na perpetuação do conhecimento e elo de ligação entre o passado-presente-futuro. E este veículo deverá trafegar sempre em boas estradas para alcançar o seu destino. Portanto, há que reformá-las e mantê-las sempre em boas condições.

O CDS/ISIS tem evoluído,  tentando acompanhar todo estes acontecimentos.
Graças a esta preocupação, não só da Unesco, mas também de inúmeras instituições usuárias em todo o mundo que contribuem com sugestões e até mesmo no desenvolvimento de aplicações e utilitários, o CDS/ISIS vem sendo agraciado com uma série de acessórios que o torna sempre atualizado.

Em meados da década de 80, a Bireme em seu projeto pioneiro na América Latina de distribuição de base de dados em CD-ROM, desenvolveu a linguagem CISIS e desta, nasceram vários utilitários (MicroISIS Extensions) que passaram a eliminar algumas restrições do MicroISIS, além de diminuir o tempo de algumas operações em até 20 vezes.

No início da década de 90, quase que paralelamente ao surgimento da primeira versão do Microsoft Windows, a Bireme em parceria com a Unesco, desenvolveu a biblioteca de funções (ISIS.DLL) que vieram a permitir o desenvolvimento de interfaces gráficas para a operação de bases de dados ISIS.

Pouco tempo depois, a Unesco disponibiliza o Winisis (MicroISIS para Windows), que além conter recursos multimídia, veio permitir a utilização de hiperligações, proporcionando o desenho de bases de dados com hipertexto e ligações  às informações armazenadas na Web.

Na corrida em busca da utilização das facilidades e agilidade destes novos veículos de comunicação , surgiram os programas servidores de bases de dados ISIS. Neste período surge o WWWisis, desenvolvido pela Bireme, que dá uma grande contribuição, nesta corrida, permitindo também, que nossas bases de dados ultrapassasse a barreira do espaço e do tempo, se integrando dentro desta nova dimensão.

Basta fazermos uma pesquisa nesta rede para vermos o impacto destes instrumentos. São milhares de instituições em todo o mundo, que adotam o CDS/ISIS, seus utilitários e extensões,  como instrumentos na organização e controle de seus acervos. As grandes redes de informação encontraram no CDS/ISIS o solução para o trabalho descentralizado e cooperativo, proporcionando uma grande economia de tempo e recursos no processo de organização do conhecimento.

A estrutura da base de dados CDS/ISIS contém inovações e recursos que até hoje não são encontrados em programas do gênero. A facilidade de importação e exportação de dados no padrão ISO2709, dando grande portabilidade aos dados; os registros de tamanho variável, que dão uma economia de espaço e tempo; a estrutura de árvore balanceada do índice, que responde em frações de segundos a questões de grande complexidade; o conceito de subcampo e campo repetitivo; a liberdade na geração de produtos e serviços; enfim, são um conjunto de fatores que proporcionaram esta grande popularidade.

Nos resta agora nos adaptarmos para utilizar todo o potencial proporcionado por estas facilidades, nos enquadrando nesta nova dimensão.

O trabalho é árduo,  mas há que ser feito e por isso temos que reavaliar nossas rotinas, procurando baixar custos, diminuir prazos, enfim, dinamizar e viabilizar este processo. Nesta corrida contra o tempo, novos métodos de organização e tratamento da informação deverão ser adotados.

É inadmissível, nesta era com tantas facilidades, a existência de bibliotecas e centros de informação que não proporcionam a seus usuários o conhecimento do conteúdo de seus acervos. Se enganam a si mesmos com a justificativa de falta de recursos humanos e materiais para tal. Não se questionam, planejando suas rotinas de forma a se adaptarem aos recursos disponíveis.

Vemos bibliotecas entulhadas de documentos inacessíveis, presos durante dias ou até meses, em estantes de "processamento técnico" esperando tratamento.

Os processos tradicionais de descrição e indexação embora tenham sua importância, são processos caros e morosos, e pela situação da falta de recursos que as bibliotecas se encontram, tornam-se muitas vezes inviáveis.

Nesta corrida, com a escassez de tempo e recursos financeiros, devemos reestruturar nossas bases de dados, que foram desenhadas sob o crivo das restrições temporais e espaciais que não mais existem, para produzirem serviços que hoje, com a quebra destas barreiras, passam a ser questionáveis.

Já é sensível a rejeição entre universitários, cientistas e pesquisadores, nos serviços que ainda utilizam catálogos, bibliografias e índices impressos, pois são veículos que não mais acompanham o ritmo dos novos meios de comunicação. Ou seja, já nascem desatualizados.

Algumas bibliotecas, com o uso da criatividade, se adaptaram a essa nova situação. O "livro de registro", convertido em uma base de dados e incrementados com informações descritivas de conteúdo (descritores),  passou a ser uma opção exemplar nesta corrida contra o tempo.

Da noite para o dia, como num passe de mágica, as bibliotecas passaram a contar com um vasto acervo, que chega sem nenhum aviso, não ocupa espaço e nem sequer precisa ser desencaixotado.  E este acervo há também que ser considerado e indexado.

Há 150 anos atrás (1851), Joseph Henry, Secretário do Simthsonian Institute dizia que "Um dos meios mais importantes para facilitar-se o uso das bibliotecas, particularmente em relação à ciência, é a organização de bons índices abreviados dos assuntos, índices que não se refiram apenas aos volumes e livros, mas que citem também os memoriais, as revistas e extratos de intercâmbios científicos e obras sistemáticas. Todo aquele que estiver interessado em alargar os limites do conhecimento humano deverá, ser justo para consigo mesmo e para com o público, tomar conhecimento de tudo quanto até então foi feito dentro de determinado setor, o que somente será possível através do emprego de índices semelhantes aos que acabamos de descrever."

Estamos vivenciando uma nova era, onde o conhecimento e a informação, já nascem dentro de um veículo a segundos de seu destino, não sobra muito tempo para investirmos em processos que acarretem qualquer atraso nesta viagem, pois corremos o risco de ficarmos preparando a bagagem de passageiros que a muito, chegaram a seu destino! Isto há quer ser repensado!

Dentro deste contexto, há que se investir no domínio dos novos recursos de transmissão e organização do conhecimento. A indexação automática, embora incipiente na forma que vem sendo utilizada, não resolvendo ainda as ambigüidades da linguagem natural, tem demonstrado excelente relação custo/benefício. Os meta-dados são exemplos a serem estudados mais a fundo. São recursos que veiculam à informação, dados descritivos de seu próprio conteúdo, agilizando e barateando espantosamente os serviços de indexação e organização do conhecimento.

Utilizando uma técnica de marcação de texto, o gerador assinala, fragmentos que identificam e descrevem a própria informação (meta-dados). Hoje, vários instrumentos de busca na Internet já se beneficiam destas facilidades, utilizando programas "web spiders" que automaticamente vasculham os servidores, obtendo descrição detalhada de seu conteúdo para complementação de seus  índices de acesso.

Nesta área, já existe alguma preocupação no desenvolvimento de um "web spider" para geração e atualização de bases de dados ISIS. Temos informações de que a Bireme pretende começar a trabalhar nesta área.

Caso se concretize, a comunidade usuária do CDS/ISIS passaria a ser agraciada com um instrumento que agilizaria e baratearia o serviço de criação e atualização de base de dados, indexando automaticamente os documentos contidos nesta nova dimensão, que é a Web.

Esses meta-dados se utilizados  com base nos princípios biblioteconômicos de controle da linguagem, eliminando ambigüidades e padronizando códigos, serão a saída para resolução dos inconvenientes na recuperação e precisão presentes nos índices do Altavista, do Yahoo, do Cadê, do Infosite, etc.

Estes controles poderiam ser feitos automaticamente, através da utilização de um banco de dados de controle do vocabulário, enriquecido com relações conceituais (thesauro) para a padronização das chaves de acesso representadas pelos meta-dados.

Esperamos que com esta apresentação, termos conseguido dar uma idéia dos rumos que norteiam o CDS/ISIS e também de ter contribuído com o ALERTA da necessidade URGENTE de questionarmos nossas rotinas, técnicas e métodos tentando adaptá-los e integrá-los nesta nova dimensão dos meios de armazenamento e transmissão do conhecimento.

Meu muito obrigado a todos.

Referências:
Kent, Allen - Manual da recuperação Mecânica da Informação. São Paulo, Polígono, 1972.

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