Charlatanismo corre solto!
Um alerta à classe bibliotecária e documentalista

Elysio Mira Soares de Oliveira
Publicado na: www.geocities.com/SiliconValley/Sector/3172em 18/10/1998

 

É com grande preocupação que vimos acompanhando a proliferação de "softwares" e sistemas milagrosos para a organização de acervos de bibliotecas e centros de informação. Felizmente, o problema não é tão alarmante devido ao fato de que o mercado potencial, alvo destes charlatães, é constituído de bibliotecários capazes e competentes, o que tem sido barreira para a suas investidas. Todos nós sabemos que armazenar, processar e recuperar informação, é bem diferente que armazenar, processar e recuperar palavras em um contexto. O Processamento da Informação é uma atividade muito mais complexa. A informação contém ambigüidades (um termo ora representa um conceito e ora pode representar outro); A informação contém relações conceituais (um termo dependendo do contexto pode representar vários conceitos). Alen Kent, há 38 anos atrás já dizia:

"O problema de planejar um sistema de recuperação da informação seria um problema trivial se (a) todo o acontecimento que incidisse sobre a consciência de qualquer ser humano provocasse o mesmo fluxo de observações; (b) se cada observador utilizasse palavras idênticas, formando as mesmas configurações, para descrever cada um desses acontecimentos, e (c) se cada pessoa interessada em aprender algo sobre o acontecimento fizesse perguntas usando a mesma terminologia."

Por desconhecimento, ou leviandade, surgem sistemas que se propõe a gestão da informação considerando-a como um mero conjunto de "palavras" (strings) e não de conceitos. Sistemas que reproduzem nossos antigos catálogos de fichas e os transformam em Base de Dados e crêem, ou se fazem acreditar, que criaram um "Sistema de Informação Bibliográfica". Sentimos claramente que a origem do problema está na falta de acompanhamento de técnicos especializados em biblioteconomia e documentação no desenvolvimento de tais "softwares". O grande erro destas empresas é ter uma visão muito simplista do processo de tratamento e recuperação da informação. Consideram uma Base de Dados Bibliográfica como um catálogo de livros, ou fichário, como o nome pode sugerir, e não como um conjunto de registros que contém ou descrevem a informação e suas relações conceituais. Assim como o acervo das bibliotecas evoluíram passando a conter novos suportes (microfilmes, vídeos, CDs, etc.), o conceito de Bases de Dados Bibliográficas também evoluiu. Com os recursos advindos com o computador, a catalogação aos poucos foi dando lugar a descrição, principalmente nas bibliotecas universitárias e especializadas. O catálogo, há muito desapareceu nestas bibliotecas. Dentro deste novo conceito, ao invés de tentar organizar a informação dentro de classes do conhecimentos (classificação), e se criar sistemas pré-coordenados para auxiliar sua identificação (catalogação), a informação passou a ser descrita e ressaltadas suas diferenças (indexação). Nasceram os "Thesaurus" e com ele a associação de conceitos. A classificação e a catalogação como sistema de recuperação de informação há muito foram abandonadas. Hoje, a classificação só é útil na organização dos suportes da informação e não mais para a sua recuperação. Alguém precisa dizer isto a "eles". Há aproximadamente 22 anos atrás, a Unesco com a publicação do "Reference Manual for Machine Readable Bibliographic Descripiton" já fornecia um "Norte" sobre esta questão e o desenvolvimento por parte da Unesco do "software" CDS/ISIS veio consagrar a utilização destes novos conceitos e técnicas. Graças a esta iniciativa, fomos brindados com um instrumento de comprovada eficiência no tratamento da informação bibliográfica. Instrumento este constantemente atualizado e distribuído gratuitamente. Pasmem!